Eu ainda era uma criança quando o invisível decidiu se manifestar. Voltava sozinho da escola, descalçando a rotina de um percurso que julgava conhecer na palma da mão, e precisava desesperadamente alcançar a segurança de casa antes que as primeiras sombras do anoitecer caíssem sobre o mundo.
Passei pela ponte sobre o rio que dava nome à cidade, enquanto o cheiro denso e adocicado das hortênsias, crescendo bravas entre o barranco inclinado e a calçada, mesclava-se de forma quase sufocante à umidade gélida vinda da água. Era um perfume vívido, impregnado na memória — uma essência que, mesmo após o salto de tantos anos, permanece visceralmente ligada à lembrança assustadora daquele fim de tarde.
Segui pelo caminho habitual e dobrei na Rua Senador Nereu Ramos. O sol moribundo ainda iluminava a cidade, embora já começasse sua descida vertiginosa no horizonte, e eu caminhava com a tranquilidade ingênua de quem sabia exatamente para onde estava indo. Bastaram apenas alguns metros para que essa ilusão se desintegrasse. A luz do dia perdeu a força de repente, devorada em um piscar de olhos; o céu adquiriu uma tonalidade cinzenta, estéril e pesada, e tudo ao meu redor pareceu envelhecer e definhar ao mesmo tempo.
As casas continuavam fixadas nos seus lugares conhecidos, mas tomadas por uma aparência decadente que eu nunca havia visto. As paredes pareciam gastas, descascadas e tomadas pelo mofo; as janelas estavam completamente escuras, como cavidades sem vida; e as árvores permaneciam imóveis, petrificadas, como se o vento também tivesse sido expulso daquele lugar. As pessoas que perambulavam por ali eram igualmente estranhas e inquietantes. Caminhavam devagar, num ritmo quase mecânico, vestidas de um jeito antigo que não reconheci, e nenhum daqueles rostos pálidos me era familiar. Eu conhecia quase todos os moradores daquela região, pelo menos de vista, o que tornou aquela presença silenciosa ainda mais aterrorizante.
O movimento comum do bairro havia desaparecido. Não se ouviam motores de carros, conversas nas calçadas ou latidos de cachorros nos quintais. O perfume fresco das hortênsias também já não chegava até ali. Em seu lugar, instaurara-se um ar pesado e cavernoso, carregado por um cheiro acre de terra úmida de sepultura e madeira antiga. Continuei por alguns passos vacilantes, tentando entender o colapso do que estava vendo, até sentir o medo primitivo crescer no peito e tomar conta de cada fibra do meu corpo.
Voltei correndo para o início da rua e, assim que saí daquele trecho macabro, a claridade radiante do sol reapareceu. Os sons da cidade retornaram em um estalo repentino, as casas recuperaram a aparência habitual e o ar voltou a parecer acolhedor e familiar. Parei ofegante, o coração martelando contra as costelas, olhando para o lugar de onde acabara de sair, enquanto tentava encontrar alguma explicação racional para uma mudança tão violenta. O caminho estava diante de mim, comum e pacífico, e o sol se aproximava cada vez mais do horizonte.
Eu precisava chegar em casa. Respirei fundo, reuni cada réstia de coragem e entrei novamente na rua, esperando desesperadamente que tudo permanecesse normal. A poucos metros do início, porém, a luz tornou a desaparecer sufocada e o céu voltou a ficar cinzento e morto. As construções adquiriram a mesma pátina envelhecida, e as pessoas estranhas continuavam circulando por ali como fantasmas. Senti o mesmo aperto aterrorizante no peito e retornei depressa.
Tentei outras vezes. Em cada tentativa, a transformação macabra acontecia rigorosamente no mesmo ponto invisível. Eu avançava, o mundo perdia a cor e aquela versão desconhecida e morta da rua surgia diante de mim. Quando voltava ao início, encontrava novamente a cidade viva que conhecia. A repetição sistemática aumentava meu pavor, porque já não conseguia atribuir aquilo ao cansaço ou a uma ilusão provocada pela luz. Havia alguma coisa sombria naquele caminho que não me permitia passar.
O tempo continuava avançando implacável, e a possibilidade de escurecer antes que eu chegasse em casa começou a me preocupar tanto quanto o horror que acontecia na rua. Resolvi procurar outra alternativa. Voltei pelo caminho de onde havia vindo, atravessei novamente a ponte e senti o perfume das hortênsias chegando até mim. Aquele cheiro conhecido trouxe algum alívio temporário, como se confirmasse que eu ainda estava perto do mundo real.
Logo depois do rio, entrei na linha do trem. Meus pais nos proibiam severamente de passar sozinhos por ali, e eu sabia que havia um perigo real. Pretendia avançar apenas o suficiente para encontrar uma forma de contornar a rua bloqueada. Os primeiros metros exigiram extremo cuidado, pois os dormentes desproporcionais interrompiam o ritmo dos passos e as pedras-ferro moviam-se instáveis sob os meus sapatos, produzindo um ruído seco a cada passada.
Os trilhos também estalavam. Um som metálico e agudo corria pelo ferro e parecia seguir adiante, espalhando-se pela extensão da linha. Ainda consigo me lembrar daqueles estalos com uma clareza impressionante e gélida, como se os trilhos estivessem vivos sob meus pés, dotados de uma consciência fria que percebia a minha presença. A sensação me deixou profundamente inquieto, embora eu continuasse, atento ao caminho e ao resto de luz que me sobrava.
Eu havia avançado poucos metros quando os sons da cidade voltaram a desaparecer, a claridade enfraqueceu até murchar e o céu adquiriu a mesma tonalidade acinzentada e opaca. Os trilhos pareciam corroídos por uma ferrugem ancestral, os dormentes tinham uma aparência apodrecida e o mato ao redor estava morto e seco. Aquele lugar estranho também havia alcançado a linha do trem. Mais adiante, pessoas semelhantes às que eu vira na rua estavam espalhadas pelo caminho, algumas próximas aos trilhos, outras paradas entre o mato seco.
Meu medo transbordou ao perceber que a mudança não estava presa àquela rua. Eu havia escolhido outro trajeto e, mesmo assim, chegara ao mesmo pesadelo.
Dessa vez não tentei continuar. Voltei imediatamente em pânico, quase tropeçando nos dormentes podres enquanto as pedras-ferro rolavam sob meus pés e os trilhos estalavam com a pressa dos meus passos desajeitados. Cada ruído prolongava a sensação angustiante de que alguma coisa sem rosto me acompanhava de perto, embora eu não tivesse coragem de olhar para trás.
Quando alcancei novamente o acesso por onde havia entrado, os sons reconfortantes da cidade voltaram e a luz alaranjada do fim da tarde reapareceu. Saí da linha pelo mesmo lugar e segui apressado para a rua da escola. A partir dali, fiz uma volta enorme pelo bairro, escolhendo um percurso muito mais longo para chegar em casa, sem passar novamente pela ponte.
O sol já estava se pondo no horizonte, e eu quase corria. A cada nova rua que dobrava, olhava primeiro para o céu, para o tom das casas e para o rosto das pessoas, tomado pelo pavor absoluto de encontrar novamente aquela paisagem sem cor. A ideia de ficar preso naquele lugar morto depois do anoitecer tornava o caminho ainda mais angustiante. Eu só queria reconhecer minha casa, ouvir as vozes conhecidas da minha família e sentir que tudo havia terminado.
Depois de uma caminhada exaustiva que pareceu muito maior do que realmente foi, avistei com alívio a rua onde morava. Ela tinha um apelido carinhoso pelo qual é conhecida até hoje: Rua dos Sapos. Reconheci de imediato as casas acolhedoras, os quintais familiares e os sons vivos daquele horário. O medo sufocante começou a ceder, e apressei os passos com a certeza abençoada de que finalmente estava a salvo.
Aquela experiência assustadora nunca mais se repetiu. Passei incontáveis vezes pelo mesmo caminho ao longo da vida, e a cidade permaneceu sólida e comum como sempre fora. A lembrança, porém, ficou marcada para sempre em mim, acompanhada pelo perfume denso das hortênsias, pela luz moribunda desaparecendo e pelos estalos fúnebres dos trilhos debaixo dos meus pés.
Muitos anos depois, ouvi falar de Setealém pela primeira vez. As histórias descreviam pessoas que, durante um trajeto comum e cotidiano, entravam de repente num lugar acinzentado, silencioso e habitado por figuras estranhas e frias. Algumas chegavam por ruas conhecidas; outras encontravam a passagem em ônibus, estradas ou estações.
Enquanto escutava aquelas histórias, reconheci instantaneamente o frio na espinha que havia guardado desde a infância. Naquele fim de tarde distante, tentei chegar em casa por dois caminhos totalmente diferentes e encontrei a mesma fenda nos dois. Talvez, por alguns minutos e por puro acaso, eu tenha atravessado A Passagem para Setealém.
Ronaldo Cavalheiro
Relato baseado em uma experiência vivida na infância.