INÍCIO DO CAPÍTULO I • LEITURA GRATUITA
Não Escute Atrás da Porta
Amostra das primeiras páginas do romance.
CAPÍTULO I
A chuva começou pouco depois do meio-dia e, ao cair da tarde, já parecia ter entrado na casa. Não era uma tempestade, apenas uma água miúda e persistente que escurecia os muros, deixava o quintal com cheiro de terra revolvida e obrigava quem chegava a permanecer alguns segundos sob o alpendre, sacudindo o chapéu ou fechando o guarda-chuva antes de atravessar a porta. Em 1961, numa cidade onde quase todos sabiam o nome do pai uns dos outros, ainda era comum velar um morto na própria sala. Teresa insistira nisso. Não queria Afonso numa capela impessoal, sob lâmpadas brancas, recebendo a visita de gente que entrava e saía sem reconhecer a casa. Ele sairia dali apenas para o cemitério. Assim dissera pela manhã, e ninguém discutira.
A mesa grande foi levada para o quarto dos fundos, as cadeiras encostadas nas paredes e o espelho do aparador coberto por um pano claro. Quando trouxeram o caixão, a casa já cheirava a café, parafina e roupa molhada. As primeiras coroas ocupavam metade da sala e algumas precisaram ser deixadas no corredor. Afonso ficou onde, aos domingos, costumava cortar o assado e implicar com o tamanho das fatias. A lembrança ocorreu à filha mais velha quando viu a tampa aberta, mas ela não disse nada. Certas memórias pareciam uma falta de respeito diante de um cadáver. Outras eram justamente o que impedia um cadáver de se tornar apenas um corpo.
Afonso tinha sessenta anos. Na noite anterior, seu automóvel fora encontrado num barranco da estrada das colônias, preso entre duas árvores, com o vidro dianteiro rachado e a porta do passageiro aberta. Ele estava curvado sobre o volante. A primeira versão falava em acidente; a segunda trouxe a notícia de que alguém o vira parado perto da ponte pouco antes; a terceira acrescentou uma discussão na serraria; a quarta dizia que o revólver guardado no porta-luvas desaparecera. Quando o corpo chegou em casa, ninguém sabia mais exatamente o que sabia. Mesmo assim, todos pareciam trazer alguma certeza.
Havia, naquela casa, uma forma particular de silêncio: não o silêncio de quem nada tinha a dizer, mas o de quem sabia que uma palavra a mais poderia alterar o peso de uma lembrança. Entre uma visita e outra, frases escapavam pela cozinha, pelo corredor, pelo alpendre. Vinham incompletas. Um nome, uma dívida, uma vergonha antiga. Para quase todos eram apenas restos de conversa. Para uma consciência disposta a julgar, porém, um resto podia bastar.
Teresa permanecia perto da parede, num vestido preto simples que lhe deixava o rosto ainda mais cansado. Recebia abraços, agradecia o café trazido pelas vizinhas, respondia às mesmas frases de consolo sem demonstrar irritação. Só quando alguém se aproximava demais do caixão é que seus olhos acompanhavam o movimento com atenção. A funerária fizera o possível para suavizar o corte junto à sobrancelha e a sombra arroxeada na parte baixa do pescoço. Teresa não perguntara como aquilo acontecera. O médico dissera que explicaria depois. Naquele momento, ela parecia preferir não saber nada que a obrigasse a pensar além das próximas horas.
O telefone tocou pouco depois das seis. A campainha atravessou a casa com uma violência desproporcional, e várias pessoas se calaram por reflexo. A filha mais velha correu até o aparelho, mas Teresa levantou-se primeiro. Havia chamadas que uma viúva julgava pertencer apenas a ela. Pegou o fone e disse alô. Durante alguns segundos, ouviu apenas um ruído baixo, talvez chuva, talvez respiração. Perguntou quem falava. Uma voz de homem, difícil de reconhecer pela linha ruim, respondeu uma única frase: “Pergunte ao Orlando por que a porta estava aberta.” Depois desligou.
Antes do telefonema, Teresa passara quase uma hora recebendo pessoas sem realmente vê-las. Reconhecia vozes, mãos, perfumes, mas os rostos pareciam pertencer a uma fila que não terminava. Alguns abraços eram sinceros; outros carregavam a curiosidade inevitável de quem entrava numa casa onde uma morte repentina deixara perguntas. Ela sabia distinguir uns dos outros e, naquela noite, não tinha forças para se ofender.
Uma vizinha trouxe uma travessa de pão e tentou lembrar Teresa de comer. Outra perguntou onde guardava toalhas. Um sobrinho de Afonso procurava fósforos. Essas pequenas necessidades davam à casa uma aparência de normalidade que às vezes era quase cruel. Teresa respondia automaticamente, e só depois percebia que continuava sabendo onde estavam os objetos de uma vida que acabara de mudar.
Em certo momento, viu o lugar vazio no cabide onde Afonso pendurava o casaco. A ausência lhe pareceu mais definitiva do que o corpo no caixão. O morto ainda ocupava espaço; o casaco não. Teresa desviou os olhos e encontrou Orlando observando-a do alpendre. Ele fez menção de entrar, desistiu e acendeu outro cigarro.
Afonso e Orlando haviam passado anos construindo uma amizade que ninguém sabia exatamente quando começara a desmanchar. Para alguns, fora dinheiro. Para outros, orgulho. Teresa conhecia partes que nenhum dos dois admitiria em público e, ainda assim, não saberia escolher um único motivo. Relações longas raramente quebravam por uma causa só. A cidade, porém, gostava de causas únicas.
Foi nesse intervalo de cansaço que o telefone tocou. O som atravessou a sala e fez várias cabeças se voltarem ao mesmo tempo, como se qualquer notícia naquela noite tivesse necessariamente relação com Afonso.
Teresa permaneceu com o fone junto ao ouvido mesmo depois de a linha ficar muda. A filha perguntou quem era. Ela recolocou o aparelho no gancho com cuidado e respondeu que tinham errado o número. Foi uma mentira pequena, quase doméstica, dessas que servem apenas para adiar uma conversa. Ainda assim, durante o resto da noite, sempre que alguém pronunciava o nome de Orlando, Teresa olhava primeiro para a porta da frente.
O filho mais velho chegou meia hora depois. Parou sob o alpendre, tirou o casaco encharcado e demorou a entrar, como se a casa tivesse se tornado propriedade de outra família desde a morte do pai. Teresa foi até ele. Não houve abraço imediato. Ele perguntou se Afonso estava muito machucado e ela respondeu que não; então o rapaz se aproximou do caixão e permaneceu ali em silêncio, segurando no bolso um canivete que encontrara entre os objetos recolhidos da estrada. O canivete pertencera ao avô. Afonso o carregava desde moço. Quando o filho perguntou se deveria colocá-lo junto ao corpo, Teresa fechou-lhe a mão em torno do objeto.
— Fique com ele.
O rapaz obedeceu, mas antes de guardar o canivete perguntou se o delegado ainda chamava aquilo de acidente. Teresa olhou para a sala cheia e depois para o marido.
— Hoje ele pode chamar do que quiser. Amanhã a gente vê.
Era a primeira frase daquela tarde em que havia raiva. O filho percebeu e não insistiu. Minutos depois, já na cozinha, ouviu alguém dizer que Orlando sabia mais do que contava. Quando voltou à sala, repetiu a frase à irmã como se fosse lembrança própria. A morte de Afonso começava a fazer isso com todos: recolhia palavras de uma boca e devolvia-as em outra com a aparência de certeza.
No princípio, as histórias vieram disfarçadas de elogio. Afonso trabalhava muito, ajudara na construção da igreja, emprestara caminhão para transportar um doente, pagara remédio de uma família quando o pai estava desempregado. Depois surgiam as ressalvas. Ajudava, mas cobrava. Emprestava, mas não esquecia. Protegia quem considerava seu e podia tornar a vida insuportável de quem entendia como ingrato. Nada disso explicava a estrada, a porta aberta ou o revólver desaparecido; servia apenas para aumentar o número de pessoas capazes de ter desejado que alguma coisa lhe acontecesse.
Por volta das sete, a casa já não possuía um único silêncio. Havia o silêncio da sala, respeitoso e fatigado, o da cozinha quando Teresa aparecia, o do alpendre quando alguém mencionava a ponte, e um quarto silêncio mais difícil de perceber, que se formava sempre que uma conversa terminava antes da hora porque alguém atravessara o corredor. Ali, as palavras pareciam viajar melhor. Uma frase dita junto à porta dos fundos chegava aos quartos quase inteira. Um riso abafado na cozinha podia ser ouvido na sala. Ninguém prestava atenção a isso. Casas velhas carregavam sons. Só muito depois aquela característica pareceria importante.
Na cozinha, a filha de Afonso já não sabia quantas vezes havia passado café. Uma vizinha tomara para si a tarefa de cortar pão; outra lavava xícaras e reclamava baixinho que ninguém comia nada. De vez em quando alguém entrava apenas para perguntar onde estava o açúcar e acabava ficando dez minutos, atraído por uma conversa começada antes. A filha ouvia o nome do pai surgir em histórias que desconhecia e descobria, com uma espécie de vergonha, que os outros possuíam versões dele às quais a família nunca tivera acesso. Algumas eram generosas. Outras pareciam pertencer a outro homem.
Quando Teresa apareceu para buscar água, encontrou as duas filhas discutindo em voz baixa sobre se deveriam avisar um irmão de Afonso que morava longe e não falava com ele havia anos. Teresa mandou telefonar. A filha mais velha perguntou se ele viria.
— Isso é problema dele — respondeu a mãe. — O nosso é avisar.
Foi uma das poucas decisões simples daquela noite. O telefone ficou ocupado durante vários minutos até conseguirem completar a ligação. Enquanto esperavam, alguém no alpendre voltou a falar da ponte. A cozinha silenciou por reflexo, depois retomou o ruído de pratos e colheres, como se o cotidiano precisasse insistir para que a morte não ocupasse a casa inteira. A primeira história que ganhou peso nasceu perto da porta da cozinha. Um antigo funcionário, já grisalho, comentou que Afonso arruinara um rapaz chamado Damião quando a serraria ainda era pequena. O rapaz perdera uma carga de madeira numa enchente e fora acusado de vender parte dela por fora. Afonso o demitiu diante de todos, exigiu dinheiro da família e espalhou que não se podia confiar nele. Anos depois, descobriram que o erro estava nos registros de transporte. Damião não roubara nada.
— E alguém foi atrás dele? — perguntou uma mulher.
O velho encolheu os ombros.
— Para quê? Já tinha ido embora.
— Mas Afonso sabia?
— Soube.
A mulher olhou para a sala, para o caixão.
— E não fez nada?
O velho acendeu outro cigarro antes de responder.
— Fez o que fazia quando não queria mexer numa coisa. Mandou esquecer.
Disse apenas que era melhor esquecer o assunto. A frase ficou no ar mais tempo do que o restante da conversa. Não havia nada de extraordinário nela. Era uma expressão comum, dita por homens acostumados a decidir quando um assunto devia terminar. Ainda assim, alguém a guardou.
Pouco depois apareceu o nome de Lúcia, professora da escola paroquial. Não estava no velório; morrera havia seis anos. Uma senhora contou que Afonso ajudara a afastá-la depois de uma acusação de comportamento impróprio com um aluno mais velho. A história, na época, tomara a cidade. A professora saiu sem se defender direito. Depois surgiram dúvidas, mas já não havia escola para ela. A senhora que contava a história admitiu ter levado um abaixo-assinado à prefeitura.
— Todo mundo assinou — disse, defensiva, antes que alguém a censurasse.
Outra mulher respondeu que “todo mundo” era uma forma muito confortável de não lembrar quem segurara a caneta. A conversa acabou ali. O homem que havia sido visto perto da ponte chegou por volta das oito e meia. Chamava-se Orlando e trabalhara com Afonso durante vinte e dois anos, primeiro como motorista, depois como sócio de uma pequena empresa de transporte que funcionava nos fundos da serraria. Nos últimos meses, porém, os dois mal se falavam. As pessoas sabiam disso sem saber por quê. Orlando entrou, tirou o chapéu, cumprimentou Teresa e ficou alguns minutos diante do morto. O rosto não denunciou nada. Talvez exatamente por isso todos o observaram. Ele foi embora cedo. No alpendre, depois que o portão se fechou, alguém disse que Afonso pretendia desfazer a sociedade. Outro falou em dinheiro desaparecido. Um terceiro contou que Orlando estivera na serraria na noite anterior, embora o homem tivesse jurado que passou a noite em casa.
Durante a primeira metade da noite, a morte de Afonso ainda era apenas uma morte. As pessoas falavam do barranco, da chuva e da estrada ruim porque essas explicações permitiam lamentar sem escolher culpados. Um motorista de caminhão contou que já perdera o controle no mesmo trecho. Outro lembrou que uma árvore fora derrubada ali no inverno anterior. Cada história parecia diminuir um pouco a necessidade de perguntar por que a porta do passageiro estava aberta.
Anselmo apareceu sem uniforme, usando um casaco escuro molhado nos ombros. Não viera interrogar ninguém. Teresa o conhecia havia anos e recebeu o abraço como recebera todos os outros. Ainda assim, a presença do delegado mudou a postura de algumas pessoas. Conversas diminuíram de volume. Um homem guardou no bolso uma garrafa que circulava no alpendre. Anselmo percebeu e fingiu não perceber.
Ficou diante do caixão por menos de um minuto. Conhecera Afonso o bastante para saber que era um homem capaz de acumular gratidão e ressentimento na mesma proporção. Na cidade, quase todo mundo devia alguma coisa a ele: dinheiro, favor, raiva, oportunidade, humilhação. Isso não transformava sua morte em crime. Transformava apenas qualquer investigação futura num terreno ruim.
Teresa o levou até a cozinha para oferecer café. Ali, longe da sala, perguntou se a estrada podia ter causado tudo. Anselmo respondeu que podia. Ela percebeu o cuidado da palavra e não insistiu. O delegado comentou que o automóvel seria examinado pela manhã e que talvez precisasse fazer perguntas depois do enterro. Teresa assentiu. Antes de voltar à sala, perguntou se a porta aberta do carro o incomodava. Anselmo demorou um instante e respondeu que ainda não sabia.
A conversa terminou ali, mas uma sobrinha de Teresa passava pelo corredor no momento em que ouviu a palavra “porta”. Mais tarde, contou a outra pessoa que o delegado desconfiava de alguém no automóvel. A outra perguntou se havia passageiro. A sobrinha disse que não sabia. Quando a história alcançou o alpendre, já existia uma pessoa que saltara do carro antes de ele cair no barranco.
Anselmo ouviu uma versão desse rumor antes de ir embora. Não corrigiu. Aprendera que desmentir cedo demais podia dar importância ao que ainda era apenas conversa. Guardou, porém, a velocidade com que uma palavra técnica se transformara em cena. Naquela casa, bastavam poucos metros entre cozinha e alpendre para que uma dúvida ganhasse testemunha.
Perto do corredor, viu a porta do quarto entreaberta. Teresa explicou que o homem ali dentro precisava de cuidados e que se acalmava ouvindo movimento na casa. Anselmo olhou apenas o suficiente para perceber uma cama e um rosto voltado para a abertura. Não entrou. O velório tinha gente demais, cansaço demais e intimidade demais para que ele transformasse aquela visita em trabalho.
Ao sair, encontrou Orlando fumando sob o beiral. Os dois se cumprimentaram. Orlando perguntou se havia algo estranho no acidente. Anselmo respondeu que ainda era cedo. Orlando disse que Afonso não teria pegado aquela estrada sem motivo. A frase ficou entre eles por alguns segundos. O delegado perguntou que motivo poderia ser. Orlando sacudiu a cabeça e disse que não sabia.
Anselmo caminhou até o carro sob uma chuva fraca. Antes de entrar, olhou para a casa. Pelas janelas, via grupos pequenos se formando e desfazendo. Cada um possuía uma parte de Afonso. Nenhum possuía o homem inteiro. Na manhã seguinte, se fosse necessário reconstruir aquela noite, teria de trabalhar com lembranças que já começavam a mudar.
Dentro do quarto, o homem continuava acordado. Não ouvira a conversa inteira entre Teresa e Anselmo. Ouvira “estrada”, “porta aberta”, “perguntas depois do enterro”. O restante fora engolido por passos no corredor. Durante alguns minutos, tentou imaginar o que faltava. Quando uma risada surgiu na cozinha e abafou outra frase, ele fechou os olhos. A parte ausente começou a ganhar forma.
Ninguém chamou a polícia. Ninguém fazia investigação. Era apenas velório, chuva e gente cansada falando baixo. Mas certas frases pareciam buscar umas às outras. Por volta das dez, o médico chegou. Examinara Afonso na estrada antes de autorizarem a remoção. Tinha pouco mais de quarenta anos, cabelo bem penteado, gravata escura e a expressão cansada de quem ainda teria pacientes no dia seguinte. Teresa o levou até o corredor. Conversaram por alguns minutos. Do lugar onde estavam, apenas pedaços atravessaram a casa. “...não foi só a batida.” “...não posso afirmar...” “...marca antiga...” “...o delegado vai perguntar.” O médico saiu sem tomar café. A filha de Afonso apareceu pouco depois com os olhos vermelhos. Perguntou à mãe o que ele dissera. Teresa não respondeu. Disse apenas que não queria aquilo diante das pessoas.