INÍCIO DO CAPÍTULO 1 • LEITURA GRATUITA
O Código da Amizade
Uma amostra das primeiras páginas do romance.
Capítulo 1
A caneta preta já tinha atravessado a segunda folha quando Lívia percebeu que Lucas havia tomado posse do bloco de anotações. Ela não interrompeu. O menino estava sentado na mesa baixa junto à janela, com um joelho pressionado contra a lateral da cadeira e o pé livre balançando num ritmo quase imperceptível. À sua frente havia lápis de cor, folhas em branco, um jogo de encaixe e dois carrinhos que ela escolhera de propósito para a sessão. Nada daquilo o interessara. O bloco de capa cinza, sim.
Lívia tinha vinte e seis anos e ainda trazia no gesto a cautela de quem acabara de sair da clínica-escola. O protocolo que começara a testar na faculdade estava ali, em cartões, anotações e dúvidas; com Lucas, ela ainda descobria o que realmente funcionava.
Helena parecia menos preocupada com a terapeuta do que com as fotografias abertas sobre o colo. Tirava uma, aproximava do rosto, colocava outra por cima. Na sexta-feira inauguraria uma exposição, a primeira de algum porte desde que voltara a pintar com regularidade, e a montagem ocupava mais espaço em sua cabeça do que ela gostaria de admitir numa consulta do filho.
— A luz dessa parede está errada — comentou, girando uma das fotografias. Só então percebeu que Lívia esperava uma resposta sobre a semana de Lucas. — Desculpe. Estou fazendo isso de novo.
Lívia não se apressou em trazê-la de volta ao assunto. Perguntou apenas se a galeria ainda estava mexendo na iluminação, e Helena explicou que Paulo, antigo chefe e agora consultor da exposição, achava que ela estava exagerando. Falou menos de um minuto, mas bastou para que o nome mudasse ligeiramente sua postura: os ombros ficaram tensos, a fotografia foi guardada rápido demais. Lívia notou e não perguntou. Havia material suficiente naquela sala sem abrir uma conversa que não pertencia ao menino.
Lucas continuava desenhando. Não eram figuras reconhecíveis. Um quadrado no centro, linhas que saíam dele, pequenos círculos nos encontros, setas que retornavam ao ponto anterior. Quando uma linha parecia terminar, ele não apagava; criava um desvio e continuava. De vez em quando girava a caneta entre os dedos e esfregava o polegar na lateral do indicador, sempre três ou quatro vezes, antes de retomar.
Helena tirou da bolsa um papel amassado e o entregou à terapeuta. A escola comunicava que Lucas se levantara durante uma atividade, interrompera a professora e desmontara o apontador de mesa sem autorização. Lívia terminou de ler e viu o menino erguer a cabeça antes mesmo que alguém mencionasse o objeto.
— Eu montei de novo.
Helena se virou para ele, já cansada de uma conversa que provavelmente tivera no carro, na saída da escola e em casa. Explicou que o problema não era ter conseguido montar, mas ter mexido em algo que não era dele. Lucas ouviu olhando para o bloco. O pé acelerou sob a mesa.
— Estava fazendo um som errado — disse.
A frase mudou a direção da sessão. Lívia quis saber o que significava um som errado, e Lucas demorou alguns segundos para organizar a resposta. Não parecia procurar uma palavra difícil; parecia tentar descobrir por que aquilo precisava ser explicado.
— Quando ela girava, raspava depois da segunda volta. Não era para raspar.
Helena soltou o ar pelo nariz. Disse que Maurício, o pai, também percebia ruídos em motores antes de qualquer outra pessoa, mas que a comparação terminava ali, porque um adulto sabia que não podia desmontar o que encontrava pela frente. Lucas apertou os dedos em torno da caneta. Lívia percebeu e conduziu a conversa para o que ele fizera depois de abrir o apontador. A peça estava desalinhada. Ele a recolocara. A professora, porém, só vira o apontador desmontado sobre a mesa e uma criança que não deveria ter saído do lugar.
— Ela ficou brava antes de eu explicar — resumiu.
Helena olhou para o relógio e, ao fazer isso, viu o catálogo da exposição ainda aberto. Fechou-o de vez. Contou que em casa a situação era parecida, só que menos fácil de registrar num bilhete. Mandava o filho guardar o tênis; ele encontrava uma peça de brinquedo no corredor, levava a peça para o quarto, via um livro aberto, lembrava de uma pergunta, descia de novo e, meia hora depois, o tênis continuava no mesmo lugar. Quando ela repetia a instrução pela quarta vez, já não sabia se estava irritada com a desobediência ou com a sensação de falar para uma criança que a escutava sem conseguir permanecer dentro do que tinha ouvido. Lucas não deixou a acusação passar inteira.
— Eu ia guardar.
Helena respondeu que ele sempre ia. A voz saiu baixa, sem dureza, e por isso pareceu atingir mais. O menino aproximou o corpo da mesa e começou a alinhar a caneta com a borda do bloco, corrigindo milímetros que ninguém além dele parecia notar.
Lívia esperou. Nas primeiras sessões tinha preenchido silêncios como aquele com perguntas demais. Aprendera rápido que, com Lucas, uma pergunta podia fechar a porta que outra quase abrira.
— Quando sua mãe pede para você guardar o tênis, você entende o que ela quer?
Ele assentiu.
— E por que não termina?
Lucas tocou a testa com a ponta da caneta.
— Porque aparece outra coisa aqui.
Helena levantou os olhos. Lívia não se moveu.
— Uma ideia?
— Às vezes. Às vezes uma coisa que eu vi. Aí eu começo e depois lembro do tênis. Só que já estou fazendo a outra.
Lívia propôs testar apenas duas rotinas durante a semana. Em vez de repetir a ordem inteira até que Lucas a cumprisse, Helena mostraria uma etapa por vez e marcaria o ponto em que ele se desviasse. A ideia interessou ao menino quando ouviu a palavra sequência.
— Se eu esquecer uma parte, volto onde?
— Na última que você tem certeza que fez.
Quando a sessão terminou, Helena já estava junto à porta, conferindo o horário no telefone. Lucas pediu mais um minuto para terminar o desenho e, diante da impaciência da mãe, Lívia propôs que concluísse apenas a linha em que estava. Ele fez duas, depois alinhou a caneta com o bloco e se levantou.
Lívia se aproximou da mesa. Agora via melhor o que ele construíra. As páginas pareciam mapas de fluxo inventados por alguém que nunca tinha visto um. Havia caminhos que se bifurcavam, retornos, caixas conectadas e um círculo que recebia várias setas. Na última folha apareciam duas figuras muito simples: uma humana, outra retangular, com braços longos. Entre elas, o mesmo emaranhado de linhas.
— O que acontece aqui? — perguntou.
Lucas apontou para uma caixa desenhada entre as duas figuras.
— Uma manda uma coisa e a outra tenta fazer.
— E quando não consegue?
Ele indicou uma seta que retornava ao início.
— Tenta de outro jeito.
Helena o chamou do corredor. Lucas soltou o bloco e saiu sem explicar mais nada.
Lívia permaneceu alguns segundos diante da mesa. Não transformou o desenho em símbolo, nem anotou qualquer conclusão apressada. Fechou o bloco, guardou-o na gaveta e só então ouviu Helena, já do lado de fora, atendendo uma ligação sobre a montagem da exposição.